“Os amigos de um homem são a medida de seu valor.”

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Assassin's Creed Syndicate - Review (Versão testada: Xbox One)

How many ways to get what you want
I use the best I use the rest
I use the enemy I use anarchy ‘cos I
I wanna be anarchy!
The only way to be
– Trecho da música Anarchy in the UK, da banda Sex Pistols

“Mais um Assassin’s Creed?”. Nem termina o ano, as pessoas mal terminaram Assassin’s Creed Unity, de 2014, e a Ubisoft já havia anunciado o próximo: Assassin’s Creed Syndicate. E então, a pergunta que não quer calar: será que esse é um bom Assassin’s Creed, para alegria dos fãs e decepção de quem detesta a série, ou será que é um Assassin’s Creed ruim, para alegria de quem detesta a série e decepção dos fãs?

O encrenqueiro e a assassina

A Ubisoft decidiu que dessa vez controlaríamos não um, mas dois assassinos: Jacob e Evie Fryes, irmãos gêmeos pertencentes ao Credo dos Assassinos desde o início do jogo. Um ponto positivo aqui, visto que acho que muita gente já está um pouco cansada de todo jogo ver uma história de origem de personagem principal na série, de todo jogo completar missões antes de se tornar assassino.

Essa escolha de apresentação já dita o tom do jogo todo: uma história mais rápida, sem muito lenga lenga, mais dinâmica, porém ainda assim bem arquitetada. Diferentemente de Unity, um jogo com um enredo mais carregado e que procurava ser mais pesado, Syndicate tem um clima muito mais leve e aventuresco, e muito se deve aos irmãos Frye.

Jacob e Evie são opostos em temperamento. Enquanto ele é explosivo, ela é fria e calculista. Nisso já dá pra perceber a diferença principal da mecânica de um de outro: o irmão é forte nas batalhas e a irmã tem mais perícia na atividade furtiva.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

Felizmente, Jacob pode passar despercebido quando quiser, e Evie pode matar grupos de inimigos. Não há restrição nesse ponto, apenas possibilidades maiores de abordagem entre um e outro, inclusive com habilidades próprias de luta únicas de Jacob e de atividade furtiva únicas de Evie.

Trocar de personagem a qualquer momento é uma ideia interessante, mas um pouco mal explorada e que acarreta em burocracia para os jogadores: são dois personagens para comprar habilidades e subir de nível e dois personagens para serem equipados com armas e equipamento. No entanto, é um tanto descomplicado visto que a experiência ganha é dividida entre ambos, mas não gostaria que essa tendência seguisse para o resto da série, apesar dos dois personagens serem bem construídos.

Liberte Londres

Assassin’s Creed Syndicate se passa inteiramente dentro da Inglaterra e majoritariamente em Londres. E é uma enorme Londres! Os desenvolvedores disseram que ela é cerca de 30% maior do que a Paris de Assassin’s Creed Unity, que já era bem grande.

Mas o que fazer em um mapa enorme desses? Entupi-lo de coletáveis, tantos que é quase impossível navegar pelo mapa e escolher exatamente onde colocar um marcador?

Por sorte, a Ubisoft Quebec foi mais esperta e menos megalomaníaca e encheu o mapa de atividades de conquista de Londres. Veja bem, quando Jacob e Evie chegam a Londres, completamente tomada pelos Templários, no topo deles estando o vilão Crawford Starrick, e devem tomar a cidade de volta.

Cada distrito é controlado por um chefe da gangue dos Blighters, sob controle templário, e Jacob tem a ideia de montar sua própria gangue, os Rooks (da qual, a princípio, Evie escarnece, pois seu objetivo é recuperar a Peça do Éden antes dos Templários).

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

Para liberar os distritos, há vários tipos de missões: caçada templária, invasão de base de gangue, liberação de crianças e caçada de recompensa. Cada uma adota um tipo diferente de abordagem, mas todas são melhor cumpridas se adotada a atividade furtiva, mas nada impede de sair descendo a porrada, especialmente depois da gangue dos Rooks já ter crescido o suficiente para que Jacob e Evie façam incursões violentas contra os templários. Quanto mais se liberta um distrito, mais os Rooks surgem pelas calçadas, possibilitando fácil ajuda aos irmãos ao alcance da voz ou da vista: é só entrar em combate que, caso eles estejam por perto, prontamente entrarão no meio para ajudar.

A mecânica lembra um pouco o que vimos em Assassin’s Creed Brotherhood, porém com maior liberdade. No jogo de 2010, a Irmandade era acionada para pequenas e rápidas incursões, enquanto Jacob e Evie podem andar livremente pela cidade com até cinco Rooks de capangas, prontos para atacarem e fazerem um fuzuê.

De início, os Rooks nem parecem lá muito úteis. Mas depois é perceptível que eles servem, principalmente, de distração, para que o objetivo seja alcançado furtivamente. Promover o caos é essencial e a mecânica se torna divertida.

Libertar Londres tem todo um caráter simbólico. O controle templário é a opressão feita sobre o povo da cidade. Estamos em plena Segunda Revolução Industrial, na cidade mais industrial da Europa no momento. E quem não faltou a aulas de história, ou pelo menos leu por aí, sabe o que rolava nessa época: trabalho infantil pesado, jornadas exaustivas de trabalho, miséria… Jacob e Evie lutam contra isso e a todo momento há um forte movimento dos assassinos contra as condições inumanas às quais os trabalhadores eram submetidos, culminando na polêmica participação de Karl Marx como aliado na luta dos Assassinos. Não entrarei em tais discussões, no entanto, porque nada influenciam na apreciação do jogo, e até fazem sentido por todo o contexto da época.

Arsenal reduzido, mas com mais porrada

Desde Assassin’s Creed II que o arsenal dos assassinos era expansivo: espadas, lanças, machados, cutelos, armas de tudo quanto é tipo… Syndicate opta por outra abordagem, com apenas três tipos de armas: kukris, que são pequenas e curvas facas longas, bengalas com lâmina (bem britânico, cheio de classe) e socos ingleses. Isso torna o combate menos estratégico e mais brutal: se antes o combate era um jogo de espera e contra-ataque, Syndicate opera quase como um Action Melee, em vários momentos até lembra a série Batman Arkham, porém com uma profundidade muito menor. Há até contador de combos agora.

Já tomando o desenvolvimento de levels e habilitação de novas habilidades para os personagens, iniciado em Assassin’s Creed Unity, obter pontos de experiência é imperativo para o avanço do jogo e quase tudo o que se faz no jogo é possível obter experiência (além de dinheiro, que possibilita o desenvolvimento e compra de armas, equipamentos e também obter melhorias de gangue). O interessante é que tudo o que aparece para fazer é atrativo. É até mesmo difícil andar pelas ruas e ser provocado pelos Blighters e ignorar, dá vontade de ir tirar satisfação, especialmente se tiver uns Rooks andando junto com Jacob ou Evie.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

Esse aspecto fluído de missão em missão faz muito bem para a série. Quando Londres ainda não está inteiramente sob o comando do jogador, sempre tem uma missão ao lado, seja de conquista, seja de ajuda para os aliados, ou de missão principal. Por Londres ser enorme, pode-se esperar uma enorme gama de missões.

Mas Londres é enorme e andar por ela seria uma tarefa cansativa se não fossem por duas boas introduções à série: carroças e a corda-gancho.

As carroças e carruagens são como os carros (e nada têm a ver com as lanchas) e há um enorme tráfego delas por Londres. O jogador pode a qualquer momento roubar qualquer uma por aí, como em Grand Theft Auto, e sair rumo ao seu destino, apavorando os Blighters, roubando cargas dos mesmos… tem até mesmo como subir no teto da carruagem enquanto o cavalo continua correndo para lutar com inimigos ou pular para outra carruagem e tomá-la. Esses momentos são excelentes, e muitas missões principais possibilitam essa abordagem em suas etapas, mas basicamente as missões de Assassin’s Creed Syndicate possibilitam enorme liberdade de realização ao jogador, o que é um ponto extremamente positivo, praticamente não há linha reta para se cumprir missões. Tudo bem, já tivemos carroças em Assassin’s Creed Revelations, mas somente em determinadas missões, e eram muito diferentes do que temos aqui.

Já a corda-gancho é mais uma mecânica emprestada e adaptada da série Batman Arkham. Jacob e Evie a obtêm logo nas primeiras missões do jogo e esta facilita a movimentação pela enorme e alta Londres. Os prédios, são muito altos e a escalada manual pode ficar maçante, e nisso a corda-gancho, ou arpéu, vem bem a calhar. Não somente para cima, mas ela também forma tirolesas entre os prédios, que também são bem mais espaçados pelas ruas do que em jogos anteriores, especialmente devido a estas serem mais largas para dar passagens às carruagens e carroças.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

Amigos e presentes

Jacob e Evie possuem vários amigos, ou associados, por Londres, incluindo ilustres figuras, como os famosos Charles Darwin, Charles Dickens, Alexander (Aleck) Graham Bell e Karl Marx, além do menos conhecido chefe de polícia Frederick Abberline, e também personagens fictícios, como o assassino Henry Green, e suas missões dão pontos de lealdade com os mesmos e, quanto mais missões fazemos, mais recompensas ganhamos. Essas recompensas vêm como materiais únicos e novas armas e equipamentos, de níveis cada vez mais altos.

É interessante haver várias missões para cada associado, pois dá profundidade aos mesmos e vamos conhecendo melhor suas ideias, mesmo que algumas vezes seja simplificado. Vejam bem, Assassin’s Creed nunca ensinou História propriamente dito, e não seria dessa vez que o faria. Mas dá uma ideia. Por exemplo, Darwin é um proeminente cientista e sofria difamação na época pela sua Teoria da Evolução das Espécies, e suas missões são sobre isso, e mostram um pouco do personagem. Mas nunca se deve levar o jogo ao pé da letra. A série, apesar de ter uma reconstrução história fantástica, ela é isso, uma reconstrução, adaptação, tudo está em favor da trama dos assassinos, então deve servir, no máximo, de gatilho para o jogador ir atrás de pesquisar mais. Nesse ponto, Syndicate está de parabéns, temos uma Londres muito bem ambientada, bem como boa construção de personagens históricos.

Charles Darwin | Assassin's Creed Syndicate

Charles Darwin | Assassin’s Creed Syndicate

Visuais e sonoplastia

Basta ver as imagens para perceber: Syndicate está um (ou vários) passos atrás de Unity. Enquanto Unity ofereceu gráficos completamente de nova geração (a um custo de má otimização para absolutamente todas as plataformas lançadas, bugs, glitches e uma enxurrada de prolemas), Syndicate lembra mais os visuais de Assassin’s Creed III e Assassin’s Creed IV Black Flag. Apesar disso, a aparência não é o suficiente para me convencer de que o jogo tem visuais da geração passada somente.

Apesar de não impressionar, o jogo tem momentos muito bonitos, com partículas pelo cenário (em pequena escala) e várias poças que refletem a luz pelo chão de Londres. Além do mais, a cidade é gigantesca, e o jogo possui uma boa arte. Há, também, uma névoa que reduz o draw distance (a distância que o jogo renderiza os gráficos para o jogador), desculpada pela presença de neblina mesmo pela Londres real.

No entanto, é difícil esconder a decepção de ver um Assassin’s Creed inferior visualmente ao seu anterior. Mas tudo isso é perdoado pela baixíssima quantidade de bugs e glitches pelo jogo e também pelo framerate bom, com pequenas e rápidas quedas, dando uma maior fluidez nesse quesito do que Unity, que apresentava drásticas quedas de performance. Espero que, em um próximo Assassin’s Creed, a engine aprimorada de Unity volte a ser utilizada, dessa vez já com todas as correções. Aliás, Unity hoje é bem mais jogável do que em seu lançamento, cinco atualizações depois.

Quanto à sonoplastia, temos boas músicas que aparecem em maior frequência do que no jogo anterior da série. Isso é bom, mas ainda não temos nenhuma música realmente marcante. Sinceramente, acho que nunca mais ouviremos uma concorrente de Venice Rooftops (Assassin’s Creed II), The Brotherhood Escapes (Assassin’s Creed Brotherhood) ou Freedom Fighter (Assassin’s Creed III), mas a música de Syndicate dá um bom caráter inglês ao jogo, com músicas que aludem a pubs, especialmente quando em fuga.

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London Creed

Assassin’s Creed Syndicate deixa várias burocracias da série de lado, como apresentação longa e demora de engrenar no jogo como assassino, e dá uma Londres inteira para o jogador explorar. Missões fluídas e coesas entre si faz os fãs não arredarem o pé até libertar toda Londres e ajudar cada associado até o fim.

Com um enredo afastado do íntimo de Jacob e Evie, mas ao mesmo tempo com boa construção de personagem, Assassin’s Creed Syndicate gira muito mais em torno da cidade e do momento histórico do que Unity o fez, e isso é um ponto muito positivo para a série, que sempre nos entregou excelentes reconstruções históricas, seja na ambientação, seja nas ações tomadas. Nesse ponto, Jacob e Evie envolvem-se completamente com Londres e seu povo, e isso é o que faz deles legítimos membros do Credo dos Assassinos.

Os gêmeos | Assassin's Creed Syndicate

Os gêmeos | Assassin’s Creed Syndicate

 

Prós

  • Manutenção e melhora das missões de assassinato
  • Fluidez em que uma missão sucede à outra
  • Personagens principais carismáticos
  • Um Assassin's Creed menos sério, e mais divertido
  • Tirou bem o gosto amargo de Assassin's Creed Unity

Contras

  • dar um passo atrás nos gráficos não é lá algo que se espere de uma sequência.
8

#Ótimo

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