O Diabo, que as enganava, foi lançado no lago de fogo que arde com enxofre, onde já haviam sido lançados a besta e o falso profeta. Eles serão atormentados dia e noite, para todo o sempre. (Apocalipse, 20:10)

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DOOM (2016) - Review (Versão testada: PC)

Abandon all hope who enter here
For this is where all things are left behind
Every doubt and every cowardice must die
Souls of rage and anger whipping in despair
(Trecho de Dante’s Inferno, música da banda norteamericana Iced Earth)

DOOM! Aquele jogo que até o seu tio conhece. Um dos avôs dos jogos de tiro (e também das polêmicas envolvendo violência e videogames). Junto com Wolfenstein (também da id Software) e Duke Nukem formam a tríade dos jogos de tiro em primeira pessoa revolucionários e que deixaram um legado sentido até hoje.

O novo DOOM, que vem para reiniciar a série, chega muitos anos após o último jogo oficial (e com vários adiamentos, atrasos, mudanças de equipe, e vários problemas de percurso), DOOM 3, de 2004, que já tinha menos ação e ia mais para o lado do survival horror, com ambientes bem escuros e um clima super intimista, contrastando com a ação frenética dos dois primeiros lá da década de 90. Bom, cada jogo tem sua época e cada época seus paradigmas. Mas e o novo DOOM? Que paradigma segue? Será que é um produto que vai para o céu sem nem passar para o purgatório gamer ou será condenado à danação eterna depois de passar em um portal em Marte?

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Abandone toda a esperança

DOOM é um jogo com uma história bastante… vaga, no mínimo. Há um enredo ali, mas muito pouco intrusivo e tudo bastante direto, com objetivos que consistem basicamente em chegar a algum ponto do mapa e apertar um botão. No meio disso, temos demônios, aos montes, que envolvem vários objetivos: rasgar, dilacerar, trucidar, cortar, desmembrar… na verdade tudo isso é um objetivo só: matar!

O jogo se passa em um futuro distante, e encarnamos o senhor… ahn… é, ele não tem nome… é a volta do mudo Doomguy, como ficou conhecido o protagonista desde o primeiro jogo da série. Uma verdadeira máquina de matar, que acorda em um leito de ritual dentro de um complexo em Marte. A partir dali, começa-se a chacina de um dos personagens mudos mais carismáticos e engraçados (dada a sua brutalidade em momentos que não requerem isso, como apertar um botão) dos videogames.

Durante o jogo, vamos conhecendo mais sobre os projetos envolvendo os humanos e Marte, bem como os portais abertos para o Inferno, que trazem os demônios. Com poucos personagens e objetivos bastante simples, DOOM não busca nos apresentar uma história grandiosa e nem cheia de pretensões, e é justamente aí que ele acerta: nem todo jogo precisa de cinematografias que fogem do controle do jogador.

É um jogo muito pouco intrusivo, que não tem o costume de tirar o controle das mãos do jogador, mas que peca justamente em ter momentos de conversa forçada com os personagens. Felizmente, estes são poucos. No entanto, para expandir o enredo, durante o jogo encontramos logs com mensagens e vamos recebendo intel que vai juntando em um compêndio, com muita informação sobre o universo de DOOM, que se prova bastante rico nesse momento. Para quem tiver interesse, explorar os ambientes é fundamental. Ou seja, é mais ou menos como Dark Souls: se você for direto sem prestar muita atenção no ambiente e sem explorar devidamente, sem ler os logs, você vai ver uma história simples, que só será enriquecida após a análise das informações.

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DOOM

Toda dúvida e covardia devem morrer

“Movimentação” é a palavra chave para DOOM. Bem mais do que “tiro”. É um jogo extremamente frenético, ágil e impiedoso com os lerdos. O jogo já mostra a que vem com os níveis de dificuldade, com nomes engraçados e provocativos. Zerei no normal do jogo (chamado de “Um tapinha não dói” – é, que vergonha) e já tive um desafio bem grande, e ficar parado por alguns momentos era morte na certa. Nada de ficar quietinho e mirando. O negócio aqui é sair correndo para todo lado e atirar em toda a chance possível (sem parar de correr, ok?). E isso exige perícia e muitos reflexos.

Como na série Halo, o jogo dá chance do jogador fugir dos projéteis atirados pelos demônios, pois estes viajam a velocidades passíveis de esquiva. Só que DOOM engrossa bastante, porque enquanto você foge de um projétil, há boas chances de logo do seu lado haver outro demônio mais poderoso, que tem ataques corpo-a-corpo. Portanto, a análise dos inimigos e do cenário é importante, já que cada inimigo tem suas peculiaridades. Alguns vão avançar para perto de você em alta velocidade, enquanto outros vão preferir manter suas distâncias. As hordas demoníacas são mais inteligentes do que parece.

Para derrotar os demônios, temos um ótimo arsenal à disposição, que vai sendo preenchido gradualmente conforme avançamos nas fases. Desde armas mais comuns, como shotguns e metralhadora pesada, até armas futuristas, como rifles de plasma e a famosa BFG (BIG FUCKING GUN!), atirar em DOOM e ver os inimigos explodindo à sua frente é uma das melhores sensações de 2016. Depois de enfrentar hordas de trinta, quarenta, cinquenta inimigos, e sair vitorioso, me fazia sentir completo e pleno.

O melhor de tudo, também, é que o jogo muda alguns conceitos dos FPS tradicionais de hoje em dia. Por exemplo, o jogo aboliu a recarga das armas. Não existe reload (e como é difícil não apertar o botão logo depois de uma sequência de tiros, mas aí é só acostumar), e é um grande acerto, pois permite ainda mais fluidez no jogo. No entanto, há escassez de balas e, para conseguir mais, o jogo te convida para o risco: atordoe um inimigo e corra até ele para literalmente rasgá-lo e, dele, conseguir mais munição e outros suprimentos.

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O inferno

DOOM também vem com uma pegada mais oldschool de não ter regeneração de vida. Isso mesmo: você é atacado de todos os lados, com quase nenhuma chance de ficar parado atrás de um cover e ainda por cima não regenera sua vida. E isso é ótimo, pois faz o jogador encarar tudo como um desafio a mais, e conforme o jogo avança, sua perícia vai ficando cada vez mais elevada. Você, literalmente, encarna o Doomguy enquanto joga: é furioso, rápido, frio e não está nem aí para esses demônios malditos. Ah, e ficou sem muita munição e sua vida está por um triz? Que tal usar sua poderosa motosserra e fazer chover suprimentos de dentro de um demônio próximo?

Em poucas missões, o jogo culminará em uma batalha contra um chefe, e esses momentos são bastante desafiadores e fazem o jogador ser mais calculista e utilizar ainda mais seus reflexos. Eu gostaria que houvesse mais chefes no jogo, pois dá uma ótima variedade e desafio quando esses momentos chegam.

É aqui onde as coisas são deixadas para trás

A aventura cheia de sangue de Doomguy por Marte e pelo Inferno se apega bastante ao seu level design. E isso vai aparentar ser repetitivo para alguns, mas este é um dos maiores trunfos do jogo. Pelos cenários de batalhas, que são amplas arenas com vários níveis verticais, há power ups para o jogador: invencibilidade, frenesi (que faz os inimigos morrerem com um soco), dano quádruplo… por isso é tão importante estudar os cenários enquanto estamos em movimento. Em um canto remoto da arena pode haver recuperadores de saúde ou de escudo e saber disso pode ser vital. É um jogo que vai te fazer um perito a cada morte, avançando cada vez mais nas batalhas, matando cada vez mais demônios daquela horda em particular que está te destroçando (literalmente).

Além disso, o design de cada missão (o jogo é dividido em fases) é muito bem pensado e há mapas enormes e intrincados, que possibilitam o backtracking caso encontre alguma chave lá pra frente e você tenha notado uma porta lá atrás. Em toda fase existem segredos, manivelas que abrem um portal para fases clássicas dos DOOM antigos (com os gráficos daquela época mesmo!), pontos de upgrade de armadura, saúde ou munição, drones de melhoramento de armas, easter eggs… e, acredite: ao terminar a fase e ver no resumo que você encontrou apenas um segredo, quando havia cinco, vai te fazer perguntar: mas como assim? Eu tenho certeza que olhei tudo! Esse é um convite para jogar uma segunda vez (outro convite, na verdade, porque a própria ação do jogo já te deixa querendo mais).

Doomguy e seu amigo desmembrado

Doomguy e seu amigo desmembrado

Almas de raiva e ódio chicoteiam em desespero

DOOM é um jogo extremamente bem otimizado, level, fluído e lindo. A violência do jogo tem personalidade, é tudo feito de uma forma para divertir o jogador, para deixá-lo maravilhado. Ao invés de cenários intimistas e escuros, temos ambientes grandes e brutais. Ah, e antes, eu havia dito que o jogo não se apega a cinematografia para contar sua história, mas todas as batalhas são extremamente plásticas e cinematográficas. Em minha opinião, quando o jogo em si, em seus momentos de maior controle do jogador sobre o que está acontecendo na tela, é cinematográfico, esse é o melhor uso que a mídia chamada videogame pode fazer da cinematografia.

Pontos extras também para os inimigos (que tem uma variedade bem razoável) e suas movimentações. Alguns dão um sorrisinho esquivo enquanto te lançam uma bola de fogo, outros vêm babando de ódio para cima de você, com seus cascos batendo forte no chão.

Um ponto negativo é a repetição de ambientes. O jogo não tem muita coisa além de complexos espaciais fechados, a superfície de Marte ou o Inferno (os últimos dois, bastante parecidos).

Agora, um ponto chave que só merece elogios é a sonoplastia desse jogo. Desde os tiros, passando pela ótima dublagem em português (pois é, para eu jogar algo com a dublagem em português é porque a coisa ficou muito boa) e culminando na excelente trilha sonora de Metal Industrial de Mick Gordon, que ajuda Doomguy a destroçar todos os demônios à sua frente.

À deriva nas profundezas, rumo às chamas eternas

DOOM é um jogo excelente. Desafiador, com muita exploração, combates cinematográficos e muito demônio sendo rasgado. Tem poucas falhas e se provou um jogo digno do legado extremamente forte da década de 90. Mesmo sem John Carmack, um dos gênios por trás dos primeiros DOOM e Wolfenstein, a id Software entregou um produto sólido e com aquela pegada oldschool, mas extremamente moderno e atual.

Afinal, nada melhor do que ver a cabeça de um Barão do Inferno explodindo depois de um tiro carregado com o Canhão de Gauss, enquanto a icônica BFG Division do gênio musical Mick Gordon toca de fundo.

Prós

  • Ótimo level design
  • Desafiador e viciante
  • Exemplo de otimização em todas as plataformas
  • Trilha sonora perfeita
  • Inimigos variados e divertidos

Contras

  • Os momentos de narração da história quebram o ritmo
  • Poderia ter mais chefões
  • Repetição de cenários
9

#Sublime

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Fundador do projeto Jogador Pensante e redator.

2 Respostas

  1. A minha paixão por Doom veio da era clássica onde eu usava disquete no pc. Quem diria que aquele quadriculado tão chamativo pra época ia evoluir pra algo tão aquém da realidade. Pena que eu não tenho saco pros shooters atuais, talvez pq eu esteja ficando velho. Esse jogo remete nostalgia ou é algo totalmente novo?

    • Foto de perfil de Neto

      Oi, Ernesto! Obrigado pelo comentário!

      Esse jogo remete à nostalgia, porque é ação frenética por mapas intrincados enormes, com procura de chaves para abrir as portas para progredir e tal, bem ao estilo do DOOM antigo, mas o jogo é extremamente moderno e atual também. É uma ótima evolução do DOOM da década de 90!

      Abraços.

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