Sangue e violência, análise do polêmico Hotline Miami

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Hotline Miami - Review (Versão testada: PC)

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta,

é sempre uma derrota”.

– Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês.

 

O pensamento acima certamente não se aplicaria ao jogo indie Hotline Miami, caso Sartre não o desenvolvesse, reconhecendo que “[…] a violência […] é um fracasso inevitável, pois estamos num universo de violência. E ainda que seja verdade que o recurso à violência contra a violência corre o risco de a perpetuar, também é verdade que é a única maneira de acabar com ela.”

Em Hotline Miami o jogador adentra um mundo onde a violência é o único meio possível para atingir seus objetivos. O jogo começa com um breve tutorial, ensinando os movimentos e ações básicas que devem ser utilizados durante a jogatina. Após este tutorial, a trama segue um tanto quanto obscura, com uma narrativa minimalista, ainda que envolvente. O personagem principal se vê em meio a uma sala escura, onde 3 pessoas mascaradas o recebem. A primeira, com uma máscara de cavalo indaga quem somos nós. A segunda, com uma máscara de uma galinha, diz que nos conhece. E a terceira, com máscara de uma coruja, diz que não nos conhece e nos trata com hostilidade. A pessoa com a máscara de galinha nos pergunta se lembramos do dia “3 de abril” e diz que este foi o dia do “nosso primeiro encontro”.

Hotline Miami

A partir daí nos vemos em nosso apartamento, onde recebemos uma ligação “da padaria” informando-nos que “os biscoitos que pedimos” foram entregues, e que “devemos ler com atenção” a lista de ingredientes. Ao verificar o pacote, encontramos uma “máscara de galinha”, junto ao bilhete dizendo que nosso objetivo é uma mala, que discrição é importante, que falha é inadmissível e que estão nos observando.

Deste momento em diante, a narrativa é seguida pelas ligações misteriosas recebidas pelo personagem – todas em linguagem de código -, que na verdade nos indicam locais em que devemos ir e matar todos os inimigos.

Mas apesar de minimalista e misteriosa, a narrativa conta com ótimos momentos de clímax e plot twists, que não serão comentados aqui obviamente para que a experiência de ninguém seja estragada. O que posso dizer é que, depois de passar algum tempo lendo sobre o plot do jogo e sobre todo seu universo, acabei ficando animado para saber mais e mais, o que me fez perceber que Hotline Miami tem um universo ficcional muito rico.

O jogo é ambientado em uma Miami alternativa de 1989, e ao que tudo indica você é um assassino de aluguel – ainda que não seja indicado em nenhum momento que você receba algo em troca pelos seus trabalhos. O personagem parece estar constantemente buscando no meio de toda a matança e violência um objetivo para continuar vivendo.

E esse é o objetivo do jogo, do início ao fim. Chegar a um ambiente e matar todos os inimigos dali. Mas só isso é o suficiente para sustentar um jogo inteiro?

“Conhecer alguém significa conhecer as ações de uma pessoa”

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Hotline Miami

Hotline Miami é um jogo de ação misturado com stealth e suas mecânicas de gameplay são todas baseadas nesta premissa. Com a câmera em uma perspectiva de cima para baixo e gráficos 2D, o jogador deve adentrar em ambientes, surpreender e matar todos os inimigos que ali se encontram. Isso pode ser feito com os próprios punhos, ou com uma infinidade de armas de fogo e armas brancas que podem ser encontradas durante as próprias fases – facas, garrafas de vidro, katanas, tacos de baseball, canos de ferro, tacos de sinuca, pistolas, espingardas, metralhadoras… até mesmo panelas com água fervendo: a escolha é sua.

Antes que a fase comece, no entanto, o jogador deve escolher uma máscara de algum animal para iniciar a matança. Cada máscara (com exceção da primeira) tem um efeito diferente como, por exemplo, a habilidade de matar diretamente com socos, ou de encontrar mais armas pela fase. Mas também há aquelas que dificultam a jogatina, trazendo um elemento de desafio a mais, como uma máscara que deixa a fase com um efeito de “escuridão”, ou outra que deixa todos os controles invertidos. No início há poucas opções de máscaras, mas as demais vão sendo liberadas ao completar fases ou encontra-las durante as mesmas.

O personagem é movimentado com as teclas “WASD”, e com o mouse; o botão esquerdo do mouse é usado para realizar um ataque corpo-a-corpo caso você esteja segurando uma arma branca, e para atirar caso você esteja com uma arma de fogo; o botão direito é usado para lançar tanto armas brancas quanto armas de fogo em direção aos inimigos. A necessidade de lançar armas de fogo em direção aos inimigos se dá a partir do momento em que o jogo não tem opção de recarregar suas armas. Ou seja, se você estiver com uma arma de fogo e acabar a munição, deve-se conseguir outra, mas ainda há a opção de nocautear um inimigo por alguns segundos lançando-a em sua direção. Dentre as armas brancas, apenas as que têm lâminas podem matar de fato os inimigos, caso arremessadas contra eles (com chances de certas vezes apenas nocauteá-los por alguns segundos). O botão “espaço” ainda pode ser utilizado para um “ataque especial” em que o jogador agarra e mata o inimigo instantaneamente – este ataque pode ser usado a qualquer momento, desde que o inimigo não o mate antes.

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Hotline Miami

É importante se atentar para um aspecto muito importante do jogo, e que talvez seja sua característica, aquilo que lhe dá identidade: o jogo é extremamente punitivo. Nem o jogador, e nem os inimigos possuem barra de life. E isso não significa que você pode morrer a qualquer momento depois de atingido várias vezes, ou que terá que atirar sabe-se lá quantas vezes no inimigo para que ele morra. Você morre com apenas um movimento (ataque corpo-a-corpo ou tiro). Já para matar os inimigos é necessário atordoa-los primeiro, seja com os próprios punhos, seja arremessando alguma arma branca não letal (como facas ou espadas), ou atingindo o inimigo através de uma porta, e depois disso finalizá-los no chão (sem levar em conta nenhuma habilidade especial dada por máscaras). Os clássicos inimigos “brutos” estão presentes em alguns ambientes – estes devem ser mortos com alguns tiros a mais que o normal (ataques corpo-a-corpo não os matam). Mas claro que também é possível matar os inimigos com um movimento apenas, utilizando-se de alguma arma branca em um ataque corpo-a-corpo, lançando alguma arma branca letal na direção do inimigo, utilizando armas de fogo, ou com o botão “espaço” que “agarra” o inimigo e o executa. Mas para todas estas opções, no entanto, é necessário estar bem atento ao timing para que você não seja morto por outros inimigos ou para que estes não percebam sua presença.

Os inimigos são rápidos e caso você seja visto é morte na certa. É um jogo baseado em tentativa e erro, então é importante prestar atenção a todos os detalhes e padrões de movimentos dos inimigos, além de usar todas as mecânicas de gameplay à sua disposição.

Como não poderia deixar de ser, o level design acompanha o resto das características do jogo, uma vez que deve-se prestar atenção a lugares apropriados para você fazer investidas ou se esconder até achar o momento certo de atacar. É possível utilizar portas para nocautear inimigos e depois finalizá-los (ou mata-los diretamente com a pancada da porta, caso você esteja utilizando uma máscara que lhe dá essa habilidade). Além disso, há paredes de vidro que lhe permite atirar ou lançar objetos nos inimigos, mas também os permitem fazer isso com você. Cada fase conta com no mínimo 2 ambientes, sendo que os checkpoints são ativados apenas na passagem de um ambiente para o outro. Ou seja: matou aqueles 15 inimigos do ambiente e aquele último que faltava te matou? Volte do início do ambiente e tente outra vez. É nítida a intenção do jogo em ter uma estrutura de “tentativa e erro”, uma vez que nem há tela de “game over”. Quando morremos, basta apertar a tecla “R” e instantaneamente recomeçamos no início do último ambiente em que estávamos.

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Hotline Miami

Há um detalhe que talvez incomode alguns: os inimigos não reagem ao verem outros sendo mortos por armas brancas, ou ao verem um inimigo já morto pela primeira vez, indo talvez a procura de quem os matou. Eles só reagem realmente quando entramos no campo de visão dos mesmos, ou quando disparamos tiros de armas de fogo, pois o barulho denuncia nossa posição e nossa presença.

Durante a fase há um contador de score e ao finalizá-la, podemos ver a quantidade de pontos que conseguimos alcançar. O jogo leva em conta alguns fatores como “Ousadia”, “Tempo” e “Mobilidade”. Além disso, são analisadas as formas e a quantidade de assassinatos realizados e, ao fim, é atribuída uma nota ao jogador.

Apesar do jogo ser 99% do tempo focado no objetivo de matar todos os inimigos da fase, ele tem aquele 1% de exploração. Durante as fases, como já mencionado antes, é possível achar máscaras que dão habilidades diversas (podendo facilitar ou dificultar o jogo), além de letras bem escondidas que, ao encontrar todas, é necessário ordená-las corretamente a fim de que uma frase seja descoberta. Isso garante que um “final alternativo” seja possível, ao fim do jogo (que revela uma parte maior da trama).

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Hotline Miami

Depois de finalizado a campanha principal, ainda nos são permitidas algumas horas a mais de jogatina, umas vez que são liberadas 2 fases extras, que garantem uma longevidade maior. Quando terminei todas as fases da campanha principal, o contador mostrava 22h jogadas. Pode ser muito (eu não esperava tudo isso), mas eu acredito que tenha passado tempo demais com o jogo pausado enquanto eu fazia outras coisas e isso pode ter contribuído para tantas horas acumuladas.

Um banho de sangue

Os gráficos de Hotline Miami são em “16-bits”, remetendo aos jogos antigos, e estão repletos de identidade própria. O jogo trata de violência gratuita em níveis altíssimos, e os gráficos também são os responsáveis por conseguirem retratar essa questão. Deve-se admirar o fato dos produtores não deixarem a limitação gráfica influenciarem na criação artística do jogo. Há várias animações de assassinatos diferentes, movimentos de personagens, e até mesmo a forma que reagem ao serem atingidos por determinada arma ou de determinada forma. De um tiro de uma arma calibre .12 até uma panela de água fervendo na cara, o jogo consegue demonstrar bem a violência intrínseca em todas as atitudes do personagem e em todo o universo ficcional construído ali.

Hotline Miami

A trilha sonora do jogo é outro elemento incrivelmente bom que o jogo nos traz. Com 22 músicas compostas por vários artistas, a trilha nos apresenta ao estilo “synthwave-eletrônico”, e são bem competentes na hora de contribuir para a imersão em todo o universo conturbado do jogo. Fazem um bom trabalho nos momentos de tensão e sabem realizar um bom contraponto em todo esse caos, trazendo trilhas mais suaves e calmas em outros momentos.

“Você gosta de ferir outras pessoas?”

Hotline Miami não é um jogo que te pega pela mão e fica todo o tempo explicando o que fazer. Mas apesar de punitivo, o jogo nos convida a tentar, e está sempre nos impulsionando a melhorar nossas estratégias e decisões. E o melhor disso é que no final, a sensação de recompensa por ter conseguido vencer todos aqueles desafios impostos, por ter descoberto alguma estratégia e por ter finalizado determinada fase, essa sensação é uma das principais coisas que me motivam a jogar videogame, e foi isso que o jogo conseguiu me proporcionar.

 

Prós

  • Level design
  • Mecânicas variadas
  • Dificuldade/Desafio
  • Trilha sonora

Contras

  • IA/reação dos inimigos
9

#Sublime

2 Respostas

  1. Bem-vindo, meu amigo!! E que início, meus parabéns!!!!

    • Valeu amigo! Espero sempre melhorar e contribuir muito mais!

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