O corpo é a prisão. Aprimoramentos são a chave. A consciência é tudo!

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Deus Ex: Mankind Divided - Review (Versão testada: PC)

What bitter vampire made you this
Gave you life with its badly kiss
Ground you limbs to bloody stew
Made a new machine of you
Turn the nightmare into day
Suck your breath, take your life away
Beating harder trough your veins
Someone else’s cold remains
– Machine Men, música de Bruce Dickinson, do album The Chemical Wedding.

Deus Ex, uma das franquias mais influentes de todos os tempos, cuja primeira instalação é tida, por muitos, como o melhor jogo de todos os tempos. O pacote está todo ali: conspirações, jogabilidade extremamente livre e imersiva, uma trama bastante adulta e que flerta com a realidade, mesmo em um futuro um tanto longe. O último jogo da série, Human Revolution, de 2011, trouxe a série de volta depois de muitos anos, e em grande estilo, recebendo muitas boas críticas e recepção dos jogadores.

Agora a franquia chega à geração atual de consoles, sob o título de Deus Ex: Mankind Divided. Será esse o aprimoramento que os fãs da série buscam, ou será somente uma amputação?

A pequena grande Praga

Deus Ex: Mankind Divided se passa em 2029, majoritariamente na cidade de Praga, dois anos após os eventos de Human Revolution. Não querendo dar spoilers sobre o jogo anterior, não falaremos o que fez o mundo chegar ao ponto que chegou.

O fato é que a humanidade se dividiu de vez: pró-aprimoramentos versus anti-aprimoramentos, após uma ocorrência que causou aprimorados a atacarem, contra suas vontades, não-aprimorados, causando muitas mortes. O jogo flerta bastante com conceitos de segregação e repressão, trazendo à tona um Apartheid em pleno século XXI, na capital da República Checa. Neste contexto, mais uma vez o jogador se vestirá do quase-robô Adam Jensen, agora um agente da CIA a cargo de descobrir ameaças terroristas neste cenário turbulento, mas que acaba se envolvendo em uma conspiração ainda maior, envolvendo os Illuminattis (marca registrada da série, por sinal).

Apesar de o enredo central ser bobo e pouco desenvolvido, é nas minúcias de Praga que se esconde a verdadeira atmosfera de Deus Ex: Mankind Divided. Ao invés de ser um jogo que joga toda a sua narrativa através de recursos do cinema, com cenas não interativas e conversas, o jogo acertadamente opta por representar a turbulência da época através da exploração do jogador, que é capaz de entrar em quase todo prédio da cidade, levando-o a compreender as pequenas histórias pessoais que tornam Praga um lugar tão hostil e em pé de guerra, formando uma história maior do que a contada: a história do cotidiano, das pessoas comuns, afetadas pelos agentes poderosos.

As ruas de Praga

É possível fazer vários paralelos com o mundo de hoje, com situações de racismo, homofobia e outros preconceitos, visto que os aprimorados são vistos à margem da sociedade, chegando ao ponto de vários serem mandados para uma cidade afastada de Praga, chamada de Golem, onde vivem em situações sub-humanas, visto que a cidade é uma enorme favela de alta tecnologia. Apesar de o governo de Praga agir deliberadamente contra os aprimorados, e no mundo real termos uma visão de que os governos pregam a liberdade acima de tudo, onde todos são iguais perante às leis, é claramente possível ver a segregação, ficando os pobres e marginalizados reclusos a seus próprios ambientes, longe da sociedade elitizada. As políticas públicas de Praga nada mais são do que a institucionalização da informalidade dos dias de hoje, reservadas as devidas proporções.

No entanto, há alguns aprimorados ainda vivendo em Praga, através de licenças concedidas pelo governo através de um rigoroso controle, ou até mesmo através de licenças falsas, vendidas por um cartel do crime que envolve criminosos e policiais (que no jogo se tornam a mesma coisa muitas vezes). São nessas minúcias que a grandiosidade do mundo de Deus Ex: Mankind Divided se escondem, e que é um pouco difícil para nós, jogadores acostumados com um storytelling mais tradicional e exógeno aos videogames, vermos. Mas, esse é também o grande truque do jogo: é justamente isso que nos faz ficar imersos em Praga e Golem. É muito difícil sair do jogo, que aguça nossa curiosidade com qualquer porta aberta que encontramos, mesmo que isso seja feito de maneira muito sutil e até mesmo invisível às nossas percepções.

Sorrateiro ou Letal?

Deus Ex é uma série largamente glorificada por deixar o jogador bastante livre para montar seus próprios caminhos. Em Mankind Divided isso é levado para um patamar acima, porém de maneira diferente.

O jogo anterior da série já trazia todos os elementos de level design de Mankind Divided: um mundo fechadinho em si mesmo para ser explorado lentamente, conforme novos aprimoramentos fossem obtidos. No entanto, Human Revolution era um jogo com maior foco em missões de ação intensa, fosse essa ação abordada de maneira sorrateira ou letal.

No jogo de 2016 ainda temos várias missões assim, em áreas grandes e cheias de entradas e saídas diferentes. Está achando difícil passar sem ninguém te ver? Ora, saque uma arma e acabe com todos. Mas e se você não quiser matar ninguém? Então quase sempre terá outro caminho, escondido abaixo de alguma caixa, atrás de uma máquina de refrigerantes, ou até mesmo pelo teto. E não é só um outro caminho, são vários outros caminhos. Isso fomenta a exploração do jogador, e também aguça para uma segunda jogada, com novas abordagens. É possível, por exemplo, zerar o jogo sem matar ninguém, e até mesmo sem ninguém te ver, sem você nem mesmo nocautear sequer um inimigo.

Essa liberdade é elemento importantíssimo para a imersão do jogador, que está sempre com os sentidos ligados para uma saída diferente do trivial, e é algo encorajado em Deus Ex, especialmente na própria Praga e em Golem, onde pouca ação ocorre na maior parte do jogo e funciona como um Hub World, um lugar de exploração, interação com NPCs, side quests e compra e venda de itens. Resumindo, é a parte mais RPG do jogo. E é aparentemente o foco dos desenvolvedores.

Tela de loading. Eles podem ser bem longos.

Eu senti, enquanto jogava, que havia poucas missões de invasão de algum lugar cheio de inimigos. E realmente não há muitas, mas o hub de Praga é tão bem montado que fica difícil achar tão ruim que haja poucas missões. O jogo é mais focado na exploração e hackeamento de dispositivos para invadir apartamentos, empresas, e encontrar notas sobre o mundo e também munições e itens úteis para uso, como baterias para usar aprimoramentos ou até mesmo kits de Praxis, que dão um ponto de aprimoramento para ser usado, automaticamente. Isso também traz muita imersão ao jogador, que terá vontade de explorar Praga por completo (assim como Golem, mas passa-se menos tempo neste Hub do que nos quatro distritos de Praga).

O bom é que praticamente tudo o que se faz no jogo é recompensado com ponto de experiência, que posteriormente se convertem em pontos de Praxis. Encontrou um caminho alternativo? Ganhou experiência. Hackeou com sucesso um notebook? Ganhou experiência. Fez alguém dormir com um nocaute? Ganhou experiência. Matou alguém com um tiro na cabeça? Ganhou ex… ah, você entendeu! Esses pontos de Praxis são importantes porque a mecânica de aprimoramento é central no jogo: é o que vai te permitir tanto abordar inimigos quanto obstáculos pelas fases. Há basicamente os mesmos aprimoramentos do jogo anterior, porém com alguns novos que são descobertos por um amigo de Jensen, que estavam instalados por baixo de seus aprimoramentos conhecidos. Os novos aprimoramentos incluem lâminas cortantes que saem como um míssil de seus braços, módulo elétrico que nocauteia inimigos à distância, entre outros. Alguns aprimoramentos são passivos, ou seja, estão sempre ativos, como o analisador de conversas, que vai facilitar escolher as respostas certas para manipular NPCs, enquanto outros são ativados e consomem bateria, como a visão de calor que enxerga inimigos através de paredes.

Uma crítica a ser feita é o quanto de bateria consome-se. É muita bateria. Pode ter sido, claro, por eu ter jogado no modo “Me Dê Deus Ex”, que é o mais difícil do jogo, mas foi um limitante, e eu preferia quase sempre não utilizar meus aprimoramentos, visto que biocélulas (recarregadores de bateria) não são tão baratas e também não são tão fáceis de serem encontradas. Esse pouco uso nos leva, no entanto, a outro problema: o jogo é bastante fácil para a abordagem sorrateira. Jensen morre mais rapidamente quando vai para o combate franco, porém do contrário é fácil, até mesmo na dificuldade mais alta.

Essa facilidade também se resume aos chefes. Em Human Revolution uma das grandes críticas foram os encontros com eles, o que resultava em combates desbalanceados para quem apostava na abordagem sorrateira, que foi ligeiramente consertada na versão Director’s Cut. O conserto para isso encontrado em Mankind Divided foi praticamente abolir os chefes, onde de obrigatório só há um chefe, no final e que, bem, eu derrotei com apenas um golpe, deixando um gosto amargo. O outro chefe que enfrentei foi em uma missão paralela, onde também derrotei com apenas um golpe.

Praga à noite, sitiada.

Modo Breach e polêmicas

Mankind Divided aposta em um novo modo de jogo, mais arcade, chamado de Breach, separado do jogo principal. O modo é até interessante, trazendo fases curtas com objetivos bastante específicos, com uma arte diferente do jogo base, emulando um ambiente de hackeamento de sistemas. No entanto, enjoa rápido e parece bastante desconectado do jogo em um geral, além de parecer bastante confuso para liberar novos aprimoramentos, novas fases e com prêmios aleatórios que deixam o modo um tanto enfadonho.

Além disso, o jogo se envolveu em uma polêmica enorme: microtransações em um jogo single player. Eu pergunto: qual a necessidade disso? Ainda mais em um jogo que te permite jogar do jeito que quiser, explorando ao máximo, fica inócuo colocar como possibilidade comprar com dinheiro real kits de Praxis, munições e outros. Apesar de eu não ter tido problema de fazer os upgrades que eu julguei necessários para o meu modo de jogo, fico me perguntando até onde a exploração para obtenção de materiais ficou prejudicada pela escolha (supõe-se que seja da publicadora Square-Enix, ao invés da desenvolvedora Eidos) de fazer microtransações. Ponto extremamente negativo para o jogo perante a comunidade de jogadores e, especialmente, entre seus fãs de longa data.

Acabou o amarelo

Uma das grandes críticas que eu lia por aí de Human Revolution era em relação ao filtro amarelo presente no jogo. Quantos amigos eu não vi falando que até queriam jogar, mas aquele filtro os deixava enfadados e sem vontade de jogar? Pois bem, para alegria geral da nação, o filtro foi abolido em Mankind Divided, que busca uma fidedignidade maior de iluminação.

O jogo é bastante bonito, especialmente se levarmos em conta como era Human Revolution, que era bastante datado para 2011 já. Excelentes texturas e ótima modelagem de personagens são os maiores elogios aqui, enquanto as críticas vão, assim como foram para o jogo anterior, para expressões faciais estranhas e péssima sincronia labial nos diálogos. Nada disso, felizmente, é capaz de nos tirar da imersão que o jogo causa.

A ambientação é fantástica!

Muito dessa imersão também fica por conta da ótima trilha sonora composta por Michael McCann, Sascha Dikiciyan e Ed Harrison, trazendo ótimos temas misturando pianos, orquestrações e sons eletrônicos, todos com cara de música incidental. A trilha sonora está presente o tempo todo, o que é outro ponto positivo, ao invés de focar no “silêncio imersivo”, que de imersivo não tem nada normalmente, enquanto uma boa trilha sonora presente, mas não invasiva em todos os momentos, pode nos dar muito mais imersão dentro do jogo.

Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos. (Nelson Mandela)

Deus Ex: Mankind Divided é uma versão ainda melhor de Human Revolution. É um verdadeiro aprimoramento. Praga está sempre interessante conforme as missões avançam, missões alternativas vão aparecendo conforme nossa exploração e o jogo não falha em aguçar nossa curiosidade, além de trazer uma construção de mundo relevante para pensarmos sobre nós mesmos.

Apesar de tudo, eu gostaria de ter tido mais missões de infiltração, que senti que ficou um pouco de lado nesse, priorizando a exploração, assim como também eu gostaria que o jogo não tivesse nenhuma microtransação. O jogo não é curto, ainda mais que te chama para uma nova jogada no Novo Jogo +, para novas abordagens e mais exploração, mas eu queria mais, o que infelizmente só virá nas DLCs, que é outro ponto a ser criticado, porém não só para Mankind Divided, mas para toda a geração: o corte de conteúdo deliberadamente para fazê-lo ser um conteúdo de download pago posterior (inclusive uma delas já foi lançada).

Não deixe de jogar Deus Ex: Mankind Divided, pois é um dos melhores títulos do ano e também da geração.

Prós

  • Mundo expansivo
  • Liberdade de jogo
  • Convite à exploração
  • Bons gráficos
  • Trilha sonora presente

Contras

  • Poderia ter mais missões intensas
  • Microtransações
  • Sincronia labial péssima
  • Aprimoramentos consomem muita bateria
8

#Ótimo

Fundador do projeto Jogador Pensante e redator.

8 Respostas

  1. Eu vejo sempre esse jogo por ae, povo falando bem, mas nada do que vejo ele em vídeos e fotos me atrai…. Bom, vou dar um chance

  2. Excelente review, Neto!
    Concordo bastante com seu ponto vista sobre o mankid divided e só incluiria ai uma impressão negativa que o jogo me passou no final, que pareceu terminar de forma súbita depois da boss fight e deixou uma sensação de que faltou algo mais ali… E considerando que tem mais dlcs vindo por ai, talvez esse “vazio” ai pode ter sido mesmo de proposito pra deixar espaço pra uma continuação…
    Abraços! :-)

  3. otima análise

  4. Muito bom review!

  5. First!

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